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RELAÇÕES INTERPESSOAIS

  • By M. Feghali
  • 1 de agosto de 201518 de junho de 2026

No mundo antigo, o homem primitivo buscou segurança e unidade no coletivo.  E o “homem civilizado”, vive essa unidade civilizadamente?  Mesmo em meio aos progressos ele permanece em luta interior nas mediações entre a livre expressão de suas pulsões, premências individuais e egoístas e aquelas reguladoras da vida em comunidade. Quaisquer que sejam as regras, ainda que vinculadas a “boas normas sociais”, serão vividas como restritivas, pelo caráter de renúncia a um genuíno impulso de satisfação. É em torno dessas reflexões que Freud afirma em 1929 no texto Mal Estar nas Civilizações, que “o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” e coloca a dificuldade nas relações interpessoais, como uma das três principais fontes de sofrimentos.

Mundo novo, o trabalho organizado e estruturado na empresa: objetivos comuns, equipe, unidade a partir de indivíduos. O profissional moderno prossegue em suas lutas internas para conciliar seus interesses pessoais e os interesses coletivos. “A existência humana é problematizada por não mais ser natural. Em relação a ela, as leis da natureza são substituídas pelas leis da cultura. Por esta razão, se – por um lado – a civilização em si, provoca um mal-estar, por outro lado, sem civilização não haveria humanidade”.  C. Nobrega sobre gestão de pessoas, em 2006.

Vicissitudes humanas, matéria prima nas relações sociais no trabalho. Todo ser humano traz em si a divisão inconsciente. O inconsciente tem expressão, se apresenta na superfície, com tudo que traz de tempestivo, infantil e recorrente; permeia ações, o modo de ver as coisas, de viver as relações e traz amplas interferências no contexto social, como a dificuldade de relacionamento.

A dificuldade de relacionamento aponta ainda o fracasso do projeto social do homem contemporâneo. Precisamos e gostamos de viver em comunidade, mas, como fazê-lo melhor? Ao homem foram dadas alternativas várias, mas interdependência é condição de sobrevivência. Da Nova Ciência, uma inspiração. A visão vibrante dos sistemas vivos, interativos, salta aos olhos: nenhum sistema vivo se basta por si mesmo. “As relações não são apenas essenciais, são tudo, delas emana a capacidade de poder. Devemos assim dar atenção à qualidade dos relacionamentos.” (Wheatley MJ, 2004).

Essa qualidade depende das premissas que visam regular de forma cada vez mais harmônica a vida coletiva. Entretanto, o projeto de humanidade, de ordenação no mundo civilizado, não é sem o individual. A saída, então, permanece na constante busca de alternativas para mediar a satisfação e interesses pessoais com as premissas de sociabilidade e para contornar o mal estar dessa dissonância.

Nas relações valem, assim, mais as perguntas do que as afirmativas. Quais fatores impactam à equipe sob efeito das interações no trabalho? O que toca as pessoas, as incentiva, ou as inibe?  O que as inspira ou frustra?  O que cada indivíduo consegue expressar de sua satisfação ou insatisfação no ambiente no qual está inserido, sem comprometer a harmonia coletiva?  Ainda que não se possa dizer ou realizar tudo, e que a plena harmonia seja da ordem do impossível, espaços para a construção dessas alternativas são fundamentais.

Alternativas como proximidade con-tato, ampliação da percepção para melhor acolhimento de pontos de vistas distintos, expressão de sentimentos pautada em fatos e não em julgamentos. A atenção à possibilidade de que o outro manifeste as suas ideias e à compreensão na comunicação. E a compreensão padece de interpretações muito pessoais, dependendo então de um sentido que só pode ser dado por quem fala, para se tentar alguma clareza.  Com a premissa, enfim, de que as relações não são apenas essenciais, elas são tudo, compreender a posição do outro é enriquecer a sua.

Não é preciso gostar da pessoa, nem ser igual, pois existe apenas a verdade de cada um. É bom que haja respeito, atenção, cordialidade. Afinal, concordando agora com Freud, ainda que a luta e a competição sejam indispensáveis, oposição não é necessariamente inimizade. Simplesmente, quando ela é mal empregada, é tornada uma ocasião para a inimizade. Não é preciso começar forte, é preciso recomeçar sempre.

A arte musical nas letras de Cazuza nos inspira, “é preciso ser artista no nosso convívio, no inferno e céu de todo dia”.  Tal a importância dessa competência que ela acaba interferindo em todas as demais prejudicando, ou alavancando a performance de um grupo.

Sendo assim, o papel da civilização seria buscar constantemente formas de contorná-lo, mesmo sabendo de saída que o projeto será incompleto.

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